Projeto
Título: Jongos, calangos e folias: memória e música negra em comunidades rurais do Rio de Janeiro
Objetivos Gerais:
- Inventariar e registrar expressões musicais negras no Estado do Rio de Janeiro, especialmente no Vale do Paraíba e litoral sul fluminense, bem como a memória e a história das comunidades negras protagonistas das manifestações culturais em foco, resgatando um valioso patrimônio imaterial;
- apoiar o movimento dessas comunidades pelo reconhecimento e valorização de suas manifestações musicais e culturais;
- formar pesquisadores na temática em foco e contribuir para a construção de uma história da cultura e da música negras no Brasil.
Objetivos específicos:
- criar um centro de pesquisa e referência sobre as comunidades e manifestações culturais abordadas no Departamento de História da Universidade Federal Fluminense;
- disponibilizar o material produzido pelo projeto no arquivo oral e de imagem do LABHOI;
- divulgar os resultados alcançados através de DVDs de caráter didático e historiográfico a serem distribuídos gratuitamente em escolas, bibliotecas públicas e centro culturais.
- desenvolver no mesmo período seminário conclusivo sobre os resultados do projeto disponibilizando no sítio do projeto na web os papers apresentados.
Justificativa:
A crescente presença de jongos, calangos e folias de reis protagonizados por afrodescendentes nos meios de comunicação, a força dessas manifestações, tidas como tradicionais e muito antigas, assim como a importância que os próprios participantes lhe atribuem na sua luta pelo reconhecimento e consolidação de uma identidade negra, transformam o registro e tratamento histórico dessas manifestações em questão central para a recuperação do patrimônio imaterial da cultura negra no estado do Rio de Janeiro.
Os historiadores da escravidão, das relações raciais e da música negra podem contribuir para tanto, fornecendo subsídios para a compreensão da história dessas expressões musicais desde, pelo menos, as últimas décadas da escravidão, pois em termos históricos tais comunidades descendem da última geração de escravos trazida da África para o Rio de Janeiro ao longo do século XIX.
O projeto preenche, também, uma ainda grande lacuna de registros e análises sistemáticas sobre a produção musical negra no Rio de Janeiro. A história da música no Brasil ainda possui poucos estudos historiográficos e suas principais versões estão comprometidas com determinadas visões da identidade nacional mestiça brasileira.
Estratégias de Ação (Memorial Descritivo):
Os proponentes já experimentaram parcialmente a estratégia de ação a ser desenvolvida, durante o projeto Memória do Cativeiro com a comunidade de São José da Serra (Valença), desenvolvido desde 1994, no LABHOI-UFF (www.labhoi.uff.br). Trata-se agora de amplificar tal experiência.
Para tanto, o levantamento e registro do patrimônio musical e da história das comunidades será realizado em 3 grandes áreas.
Área 1: LITORAL
1A: Litoral sul fluminense - área de desembarque clandestino de escravos para o Vale do Paraíba ocidental, até a década de 1850, registro prévio da presença do jongo nas comunidades de quilombo da Marambaia (Mangaratiba), Bracuhy (Angra dos Reis) e Campinho da Independência (Parati).
1B: Litoral Norte Fluminense, região açucareira e de desembarque clandestino de escravos, de grande concentração de cativos, desde o final do século XVIII, comunidades já identificadas: Rasa, Caveira e Quissamã. Registro prévio da presença de “fados” na comunidade negra de Quissamã.
Área 2: Vale do Paraíba
2A: Vale do Paraíba Ocidental, chegada de escravos de línguas banto na primeira metade do século XIX, duas comunidades quilombolas -São José e Quatis- identificadas, registros prévio da presença do jongo - a comunidade de São José da Serra tem um CD- livro gravado - e também de calango;
2B: Vale do Paraíba Oriental, chegada de escravos de línguas banto na primeira metade do século XIX, tráfico interno de escravos a partir de 1850. Última fronteira do café no Estado do Rio de janeiro.
Área 3: Rio de Janeiro e Baixada Fluminense.
Área de migração dos descendentes da última geração de africanos, rural/rural (1920/1940) e rural/urbano (1940 a 1960).
Nas comunidades negras selecionadas de cada área estão sendo gravados depoimentos com os membros mais antigos e com os participantes das manifestações musicais pesquisadas.
O objetivo, através da história oral, é registrar a memória e história dos grupos e de suas atividades musicais. As genealogias reconstituídas através dos depoimentos orais serão também confrontadas com os registros de nascimento e óbitos e inventários das antigas fazendas. Serão também realizadas filmagens das principais festas e manifestações musicais.
O trabalho de campo nas cinco áreas será desenvolvido num prazo de 12 meses. O material audiovisual de cada região será editado com vista à produção de um vídeo digital, apresentando de forma didática a história e as principais manifestações culturais inventariadas. O documentário em forma de DVD deve estar concluído para ser apresentado em seminário conclusivo do projeto reunindo especialistas no tema a ser realizado na Universidade Federal Fluminense.
Todos os equipamentos adquiridos serão doados à UFF. A UFF oferece, como contrapartida, suas instalações físicas e de infra-estrutura. A lista de escolas, bibliotecas e centros culturais a serem beneficiados com a distribuição do DVD dependerá de estudo a ser realizado na fase de pós-produção.
Plano de distribuição de Produtos Culturais: Todos os registros orais e visuais a serem produzidos ficarão disponíveis no acervo Petrobrás Cultural de Memória da Música negra do Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI/ UFF) . O catálogo do acervo pode ser acessado na página web desse mesmo laboratório pelos pesquisadores interessados. Prevê-se uma tiragem de 1000 exemplares para o DVD de distribuição gratuita em bibliotecas públicas, escolas e centros culturais. Os papers produzidos para o seminário serão disponibilizados no sítio web do Labhoi. Prevê-se contactar uma editora comercial para publicação de um livro com os principais textos e imagens apresentados no seminário.
Bibliografia: